Acordei, olhei para o relógio: são 5h. Bolas! Devo ter desligado o despertador das 4h a dormir.
Rapidamente arrumo as coisas todas e vou para a entrada do albergue, ainda tenho de tratar dos meus pés. Com gaze gentilmente oferecida por outro peregrino, comecei por envolver o mindinho direito, estava menos mal que o esquerdo e queria ver como me sentia. Com um penso a servir como fita cola a fixar a gaze no sítio, calcei a primeira meia devagar e tento a certeza que não mexia muito a gaze. Ainda não tinha decidido se levaria outra vez duas meias, mas neste momento decidi que sim, precisava do conforto extra nos dedos.
No pé esquerdo foi mais complexo, o mindinho tinha duas bolhas diferentes e os dois dedos seguinte também cada um com a sua. Comecei por envolver o mindinho com uma "dose dupla", para ficar mais acolchoado. Depois, enquanto passava para os dedos seguintes, observei que não poderia colocar no diretamente a seguir, uma vez que já tinha o dobro da quantidade de um lado. Portanto, apenas coloquei no dedo do meio (que no pé não é o maior xD).
O teste demonstrou a funcionalidade do que estava a fazer, se conseguiria andar. Com uns primeiros passos feitos a custo, não demorou muito a conseguir andar bem. Já eram 5h40 e queria ter saído uma hora antes, tinha de me por ao caminho.
Com o primeiro quilómetro ainda de teste e também com algum cuidado relativamente ao caminho a seguir no escuro, a partir do momento em que saí da cidade e comecei a andar em estradas de terra, com os braços ainda a puxar bastante, fui sendo capaz de progredir a bom ritmo.
Com algumas subidas pelo caminho, parei ao fim de 5km para comer qualquer coisa, a partir dali só queria parar em Padrón.
Os primeiros passos depois de parado foram mais difíceis, tinha de me voltar a habituar as dores para conseguir andar. Ainda estava de noite e seguia sozinho, a neblina ainda pairava a minha frente, iluminada pelos postes de rua.
Enquanto que até aí tinha seguido com lanterna sempre na mão, nesta altura deixei-a guardada na bolsa lateral da mochila e apenas retirava quando, em algum cruzamento, precisava de verificar para onde apontavam as setas. Embora ainda escuro, o caminho não era muito técnico e, assim, permitia-me levar os dois batons nas mãos para auxiliar a progressão.
Sabia que tinha 12km até Padrón, que contava fazer em duas horas e descansar um pouco. Com o sol a aparecer atrás das montanhas lá fui seguindo. As mãos começavam a ficar cansadas de agarrar os batons com força, mesmo variando maneiras de pegar e de fazer força.
Cheguei a Padrón começando a reconhecer o percurso efetuado no ano anterior. Ia observando os marcos do Caminho, que indicam a distância restante até Santiago, e sabia que chegaria a Padrón quando faltassem 23.
Assim que cheguei fui para o café onde, o ano passado, paramos diretamente antes de sair de Padrón, onde o dono, Pepe, nos recebeu muito bem. Com um sumo de laranja e uma lata de atum para comer, em pouco tempo estava a seguir caminho, apesar de querer fazer o resto da distância em 4 horas, sabia que tal poderia não acontecer. À saída, tal como no ano passado, Pepe deu um abraço de boa sorte e palavras de incentivo.
Tinha pela frente uma etapa igual à de ontem, que me separou de Caldas de Reis, 23km de percurso mais de estrada, segundo me lembrava do ano passado.
Com os primeiros passos a muito custo depois de ter estado parado, comecei a ganhar ritmo e a fazer distância, percorrendo uma vez mais os caminhos que tinha feito da última vez com amigos do Caminho.
Fiz duas horas seguidas de caminhada e quando comecei a ficar com fome parei no café onde tinha comido uma "empanada" (nosso empadão) que tinha adorado. Era a meio caminho entre Padrón e Santiago, altura ideal para parar e depois fazer seguido até lá. Uma fatia quentinha no momento e outra guardada para levar.
Uma vez mais, bastaram os 10min que estive parado para custar a andar a seguir. Mas desta vez não iria parar até chegar ao meu destino, cada paragem custava mais a arrancar de novo. 12km, duas horas para chegar ao meu destino e acabar esta aventura.
Passado pouco tempo, ainda com pouco mais de hora para chegar, comecei a sentir uma outra coisa a chatear, a sentir eventualmente uma nova bolha a formar-se. Desta vez no próprio pé, esquerdo e bem junto aos dedos. Ainda ontem comentava que as minhas únicas bolhas seriam nos dedos, que os meus pés estavam impecáveis, mas agora estava a observar-se que não era o caso.
A habituação às outras bolhas manteve-se da mesma maneira, especialmente com o acolchoamento da gaze, mas esta nova não me permitia habituar, era nova e incomodava cada vez mais, doía a andar. Além da bolha, comecei a sentir as pernas cansadas e a custarem a mexer, os mais de 200km estavam a começar a pesar bastante.
Para piorar a situação, já a menos de uma hora do destino, sem querer comecei a seguir um caminho alternativo, que por vezes leva por sítios mais "tradicionais", mas que também aumenta a distância. Honestamente, neste momento não queria nada disso, só queria chegar. Apercebi-me disso enquanto ia andando e nada do que via era minimamente semelhante com o que me lembrava do ano passado, tinha algum receio de me ter enganado, mas marcos semelhantes aos anteriores iam indicando a distância. A única diferença era que estes marcos de pedra não indicavam a distância, tinham uma seta amarela e eram garantidamente muito mais novos que os outros.
Quando voltei a entrar em percurso que conhecia ainda pensei que tivessem alterado parte do mesmo por algum motivo. Mais em baixo, antes de começar a subir bem e entrar na cidade, reparei numa bifurcação as setas amarelas pintadas a mandar pelo lado que tinha já feito o ano passado é um desses marcos a mandar para outro. Como não queria andar ainda mais, fiz o que já conhecia e que seria mais direto.
Depois de subir durante mais de um quilómetro seguido, estava a entrar em Santiago. À entrada faz lembrar Valença, que para chegar ao destino tem de se subir uma avenida, mas esta era maior, tinha de continuar a subir ainda mais. Para piorar, havia ainda menos setas a indicar o caminho, daquilo que se vai vendo na parte espanhola do Caminho. Portanto, com alguma insegurança se estaria a ir corretamente, lá fui subindo até que cheguei a uma passadeira de que me recordava. Passando essa passadeira, apenas virar à esquerda e já se via a catedral ao fundo, surgir por cima dos edifícios.
Com a rua cheia e movimentada devido às várias lojas, fui andando devagar e cheguei finalmente à Catedral. Cheguei finalmente ao meu destino, ao fim de cinco dias de caminhada e algum sofrimento!
Não tinha muito tempo, eram 14h e queria voltar para o Porto às 17h.
Encaminhei-me diretamente para o local onde levantaria a Compostela, mas não estava lá nada. Perguntei a uma pessoa onde poderia levantar e indicou-me que tinha mudado de sítio, para perto da praça principal à frente da catedral. Pelo caminho perguntei mais 3 vezes, sempre a achar um pouco estranho o local para onde me mandavam. As instalações novas pretendiam ser melhores e mais rápidas a atender, num edifício que parecia ser um convento.
Demorei uma hora a receber a Compostela, já eram quase 15h30.
Com bastante sofrimento dos pés depois de ter estado parado na fila, fui para a praça tirar umas fotos com a catedral nas costas, merecia uma "selfie" depois de todo este sofrimento.
A mancar um pouco, encaminhei-me para o terminal de autocarros para voltar para o Porto. Fecho o dia de hoje enquanto estou no autocarro de volta para o Porto.
A etapa de hoje de 43km foi feita em 7 horas de caminhada, para o qual tive de fazer mais de 55 mil passos e queimar 4500 kcal. Foi a conclusão do Caminho, a conclusão de uma aventura que me propus fazer, de um desafio que estabeleci pessoalmente.
sexta-feira, 2 de setembro de 2016
quinta-feira, 1 de setembro de 2016
Caminho de Santiago 2016 - Mós a Caldas de Reis
4o dia, já só falta hoje e amanhã, a maior parte já ficou para trás.
Hoje foi o dia mais difícil, é o acumular de tudo até agora.
O levantar da cama custa sempre, com o corpo já todo massacrado, uma ligeira dor de costas, os dois tornozelos a doer um pouco e os dedos do pé esquerdo com algumas bolhas. É difícil resistir à tentação da cama, mas o desafio espera-me, tenho de continuar.
À saída do albergue, com uma barra de cereais na mão para dar a dose de açúcar matinal, comecei logo a subir e assim se manteve durante uns 3 quilómetros. Com o pé com duas meias e as sapatilhas de trail, esperava que talvez os pés aguentassem melhor o dia.
No plano conseguia andar a bom ritmo, mesmo com o pé esquerdo magoado, ia compensando com os braços, mas nas descidas tudo mudava. Para além da bolha no mindinho, comecei a sentir um grande desconforto nos dedos do meio do pé, que não percebi bem se seria bolha ou não. Ocasionalmente parava um pouco para ajeitar o pé e ver se estava tudo bem, mas o desconforto e a dor continuou. Para piorar, tudo o que subi ontem e hoje ao sair do albergue, desci no espaço de dois quilómetros antes de chegar a Redondela. Portanto, descidas bem acentuadas e que nunca mais acabavam, a ter de parar a cada dois minutos para ajeitar o pé e com os batons a tentar amortecer a maior parte do impacto.
Assim que cheguei a zona plana, com recurso aos braços para auxiliar, impus um ritmo mais elevado que mantive até entrar na cidade de Redondela. Aí, parei para comer algo mais substancial e descansar um pouco as bolhas, apenas 1h30 depois de ter começado.
Não quis estar a tirar a sapatilha para avaliar, não iria adiantar nada olhar e o tirar a pressão poderia implicar a dilatação das bolhas e do pé e não conseguir voltar a calçar depois. É serrar os dentes e continuar, já falta pouco!
Assim que recomecei tentei andar rápido, a distância hoje ainda seria muita e não tinha muito tempo a perder. Passei outra vez pelos portugueses de ontem, que tinham ficado em Redondela. Umas pequena troca de palavras, algumas de ânimo, e segui caminho.
A maior subida apareceu logo depois. Mesmo esperando e sabendo o que seria, continua a ser algo bastante difícil. Tentei fazê-la o mais rápido possível, a utilizar a beira da estrada onde os pés e os batons conseguiriam ter melhor tração. Culpa minha por querer ser rápido, estava distraído e acabei por me perder, subindo demasiado. Na volta para trás consegui perder-me outra vez, nem repetir o caminho no inverso consigo fazer direito. Apesar de pagar por isso, fui forçado a ligar os dados móveis e abrir o GoogleMaps, de maneira a perceber o que tinha feito mal e voltar ao caminho correto.
Assim que o encontrei, impus um ritmo forte, estava chateado por me ter perdido e ter feito mais 2km desnecessariamente. Os pés já não me doíam, as bolhas já não incomodavam, apenas queria andar e recuperar o tempo perdido.
Enquanto ia andando mais uma coisa aconteceu para me chatear ainda mais: comecei a sentir uma dor no pé direito. Mas não era dor de bolha, parecia que a unha de um dedo estava agarrada à meia, dando sensação de a unha estar a ser arrancada. Sentei-me, tirei as meias (visto que tenho duas calçadas em cada pé xD), ajeitei as de dentro em contacto com o pé e segui caminho. Durante as descidas os dois pés chateavam-me, mas no plano e nas subidas conseguia andar a bom ritmo, sempre com os braços a puxar bem.
O caminho passava pela floresta, com algumas subidas mais complicadas, onde passava por mais gente um pouco mais lenta. Não tinha a certeza quanto teria de fazer até ter visto o sinal da distância que faltaria até Pontevedra, seriam 30 no total até lá mais 23 até Caldas de Reis, o dia de hoje foi puxado mas deixa menos para fazer amanhã.
À saída da parte de montanha tenho uma escolha a fazer: faço a parte final até Pontevedra pela estrada ou a acompanhar um riacho, pelo meio de uma floresta? Por um lado, a beleza da floresta é incrível, mas já o conhecia do ano passado e pela estrada seria mais rápido, apesar de mais entediante. Escolhi a estrada, quero fazer o Caminho, mas já tenho bastantes quilómetros para fazer em cada dia e não me quero demorar demasiado.
Assim que cheguei a Pontevedra o albergue ainda estava fechado, tinha pensado lá ficar um pouco a descansar na entrada. Fui para um café ao lado comer qualquer coisa e descansar sentado. Acabei por ficar mais tempo que inicialmente previsto, mas acabei por me por ao caminho, com energia para a distância que me separaria de Caldas de areia e do descanso de hoje.
A energia estava lá, mas desapareceu tão rápido que fiquei parvo. Assim que coloquei os pés no chão, depois de terem estado pendurados a descansar de um banco alto, as dores foram terríveis, nem conseguia andar direito. Os primeiros 3 quilómetros foram penosos e lentos, a sentir o pé direito ensopado, alguma bolha tinha rebentado. Foi o tempo de sair de Pontevedra e começar a estrada de montanha, altura em que me habituei a dor e com grande auxilio dos braços com os batons consegui ir andando.
Ao fim de 10km, com partes a subir a montanha, parei no café onde no ano passado tinha tomado pequeno almoço com o Rui, Dan e a Marta. Estava igual, com a mesma senhora a servir. Bebi um sumo de laranja, comi umas barras das minhas e com alguma conversa com os senhores que lá estavam segui caminho, ainda faltavam 12km e a vontade seria ficar ali se me deixasse descansar demasiado tempo.
Os braços já estavam cansados do esforço, as mãos já não conseguiam agarrar com tanta força as pegas e ia tentando variantes de modo de segurar. Sabia que ia demorar, sentia os quilómetros a passarem muito penosamente, apenas pensava na dor que tinha no pé esquerdo e a sentir a bolha no mindinho do pé direito.
Neste momento tomei a decisão de que não valia a pena pensar nisso, ontem também tinha sofrido no final até Mós, mas já fazia parte do passado. Portanto, deixei de olhar para a distância no relógio, nem quando apitava a cada quilómetro, deixei de olhar para os marcos do caminho, aqueles que indicam a distância que falta até Santiago, e, acima de tudo, pus-me a andar decidido, a bom ritmo e com os braços a impor a velocidade. Quanto mais rápido andar, mais passadas vou dar, menos tempo de contacto com o solo tenho, menos tempo a fazer pressão nas bolhas, menos dor. Além disso, já me tinha habituado a dor e já não sentia, era sempre a andar para a frente e nem para tirar fotografias parava, já não conseguia pensar nisso.
Assim que cheguei a Caldas de Reis encaminhei-me diretamente para o albergue, só queria sentar-me e tirar as sapatilhas. Foi preciso passar quase até à saída (é uma cidade bastante pequena) para chegar ao albergue oficial, para descobrir que já estava cheio e tinha de voltar tudo para trás para o opcional, já em grande sofrimento depois de pensar que já tinha chegado.
O momento de tirar as sapatilhas foi quase assustador. Comecei pelo pé direito, tirei uma meia de cada vez e verifiquei que tinha uma pequena quantidade de sangue na unha onde tinha sentido a chatear. Ficou o pior para depois, enquanto tirava lentamente as meias, com algum receio de ficarem coladas a alguma coisa. O mindinho, tal como ontem, tinha uma bolha, mas o pior eram os dois dedos seguintes: colados um ao outro e com restos do que foi uma bolha de sangue e que tinha rebentado.
No banho tudo melhorou, as peles soltas saíram e limpou o sangue todo. Na lavagem da roupa reparei na quantidade de sangue que saiu das meias do pé esquerdo, ao menos tinham feito o seu trabalho que absorver qualquer "humidade", deixando o pé seco.
Descobri que não só sou mortal como tenho um limite bem definido.
O dia de hoje contou com cerca de 52km a andar, a contar com os dois em que tive perdido, num total de quase 9 horas. 60 mil passos e 5 mil kcal foi o necessário para completar a etapa de hoje.
Amanhã serão 43 até Santiago, passando por Padrón aos 18km. Conto acordar às 4h, para ter tempo de lá chegar, a contar com eventualidades dos dedos e das bolhas, e ter tempo de ir buscar a Compostela antes de ir tentar apanhar a camioneta para o Porto.
Está quase!
Hoje foi o dia mais difícil, é o acumular de tudo até agora.
O levantar da cama custa sempre, com o corpo já todo massacrado, uma ligeira dor de costas, os dois tornozelos a doer um pouco e os dedos do pé esquerdo com algumas bolhas. É difícil resistir à tentação da cama, mas o desafio espera-me, tenho de continuar.
À saída do albergue, com uma barra de cereais na mão para dar a dose de açúcar matinal, comecei logo a subir e assim se manteve durante uns 3 quilómetros. Com o pé com duas meias e as sapatilhas de trail, esperava que talvez os pés aguentassem melhor o dia.
No plano conseguia andar a bom ritmo, mesmo com o pé esquerdo magoado, ia compensando com os braços, mas nas descidas tudo mudava. Para além da bolha no mindinho, comecei a sentir um grande desconforto nos dedos do meio do pé, que não percebi bem se seria bolha ou não. Ocasionalmente parava um pouco para ajeitar o pé e ver se estava tudo bem, mas o desconforto e a dor continuou. Para piorar, tudo o que subi ontem e hoje ao sair do albergue, desci no espaço de dois quilómetros antes de chegar a Redondela. Portanto, descidas bem acentuadas e que nunca mais acabavam, a ter de parar a cada dois minutos para ajeitar o pé e com os batons a tentar amortecer a maior parte do impacto.
Assim que cheguei a zona plana, com recurso aos braços para auxiliar, impus um ritmo mais elevado que mantive até entrar na cidade de Redondela. Aí, parei para comer algo mais substancial e descansar um pouco as bolhas, apenas 1h30 depois de ter começado.
Não quis estar a tirar a sapatilha para avaliar, não iria adiantar nada olhar e o tirar a pressão poderia implicar a dilatação das bolhas e do pé e não conseguir voltar a calçar depois. É serrar os dentes e continuar, já falta pouco!
Assim que recomecei tentei andar rápido, a distância hoje ainda seria muita e não tinha muito tempo a perder. Passei outra vez pelos portugueses de ontem, que tinham ficado em Redondela. Umas pequena troca de palavras, algumas de ânimo, e segui caminho.
A maior subida apareceu logo depois. Mesmo esperando e sabendo o que seria, continua a ser algo bastante difícil. Tentei fazê-la o mais rápido possível, a utilizar a beira da estrada onde os pés e os batons conseguiriam ter melhor tração. Culpa minha por querer ser rápido, estava distraído e acabei por me perder, subindo demasiado. Na volta para trás consegui perder-me outra vez, nem repetir o caminho no inverso consigo fazer direito. Apesar de pagar por isso, fui forçado a ligar os dados móveis e abrir o GoogleMaps, de maneira a perceber o que tinha feito mal e voltar ao caminho correto.
Assim que o encontrei, impus um ritmo forte, estava chateado por me ter perdido e ter feito mais 2km desnecessariamente. Os pés já não me doíam, as bolhas já não incomodavam, apenas queria andar e recuperar o tempo perdido.
Enquanto ia andando mais uma coisa aconteceu para me chatear ainda mais: comecei a sentir uma dor no pé direito. Mas não era dor de bolha, parecia que a unha de um dedo estava agarrada à meia, dando sensação de a unha estar a ser arrancada. Sentei-me, tirei as meias (visto que tenho duas calçadas em cada pé xD), ajeitei as de dentro em contacto com o pé e segui caminho. Durante as descidas os dois pés chateavam-me, mas no plano e nas subidas conseguia andar a bom ritmo, sempre com os braços a puxar bem.
O caminho passava pela floresta, com algumas subidas mais complicadas, onde passava por mais gente um pouco mais lenta. Não tinha a certeza quanto teria de fazer até ter visto o sinal da distância que faltaria até Pontevedra, seriam 30 no total até lá mais 23 até Caldas de Reis, o dia de hoje foi puxado mas deixa menos para fazer amanhã.
À saída da parte de montanha tenho uma escolha a fazer: faço a parte final até Pontevedra pela estrada ou a acompanhar um riacho, pelo meio de uma floresta? Por um lado, a beleza da floresta é incrível, mas já o conhecia do ano passado e pela estrada seria mais rápido, apesar de mais entediante. Escolhi a estrada, quero fazer o Caminho, mas já tenho bastantes quilómetros para fazer em cada dia e não me quero demorar demasiado.
Assim que cheguei a Pontevedra o albergue ainda estava fechado, tinha pensado lá ficar um pouco a descansar na entrada. Fui para um café ao lado comer qualquer coisa e descansar sentado. Acabei por ficar mais tempo que inicialmente previsto, mas acabei por me por ao caminho, com energia para a distância que me separaria de Caldas de areia e do descanso de hoje.
A energia estava lá, mas desapareceu tão rápido que fiquei parvo. Assim que coloquei os pés no chão, depois de terem estado pendurados a descansar de um banco alto, as dores foram terríveis, nem conseguia andar direito. Os primeiros 3 quilómetros foram penosos e lentos, a sentir o pé direito ensopado, alguma bolha tinha rebentado. Foi o tempo de sair de Pontevedra e começar a estrada de montanha, altura em que me habituei a dor e com grande auxilio dos braços com os batons consegui ir andando.
Ao fim de 10km, com partes a subir a montanha, parei no café onde no ano passado tinha tomado pequeno almoço com o Rui, Dan e a Marta. Estava igual, com a mesma senhora a servir. Bebi um sumo de laranja, comi umas barras das minhas e com alguma conversa com os senhores que lá estavam segui caminho, ainda faltavam 12km e a vontade seria ficar ali se me deixasse descansar demasiado tempo.
Os braços já estavam cansados do esforço, as mãos já não conseguiam agarrar com tanta força as pegas e ia tentando variantes de modo de segurar. Sabia que ia demorar, sentia os quilómetros a passarem muito penosamente, apenas pensava na dor que tinha no pé esquerdo e a sentir a bolha no mindinho do pé direito.
Neste momento tomei a decisão de que não valia a pena pensar nisso, ontem também tinha sofrido no final até Mós, mas já fazia parte do passado. Portanto, deixei de olhar para a distância no relógio, nem quando apitava a cada quilómetro, deixei de olhar para os marcos do caminho, aqueles que indicam a distância que falta até Santiago, e, acima de tudo, pus-me a andar decidido, a bom ritmo e com os braços a impor a velocidade. Quanto mais rápido andar, mais passadas vou dar, menos tempo de contacto com o solo tenho, menos tempo a fazer pressão nas bolhas, menos dor. Além disso, já me tinha habituado a dor e já não sentia, era sempre a andar para a frente e nem para tirar fotografias parava, já não conseguia pensar nisso.
Assim que cheguei a Caldas de Reis encaminhei-me diretamente para o albergue, só queria sentar-me e tirar as sapatilhas. Foi preciso passar quase até à saída (é uma cidade bastante pequena) para chegar ao albergue oficial, para descobrir que já estava cheio e tinha de voltar tudo para trás para o opcional, já em grande sofrimento depois de pensar que já tinha chegado.
O momento de tirar as sapatilhas foi quase assustador. Comecei pelo pé direito, tirei uma meia de cada vez e verifiquei que tinha uma pequena quantidade de sangue na unha onde tinha sentido a chatear. Ficou o pior para depois, enquanto tirava lentamente as meias, com algum receio de ficarem coladas a alguma coisa. O mindinho, tal como ontem, tinha uma bolha, mas o pior eram os dois dedos seguintes: colados um ao outro e com restos do que foi uma bolha de sangue e que tinha rebentado.
No banho tudo melhorou, as peles soltas saíram e limpou o sangue todo. Na lavagem da roupa reparei na quantidade de sangue que saiu das meias do pé esquerdo, ao menos tinham feito o seu trabalho que absorver qualquer "humidade", deixando o pé seco.
Descobri que não só sou mortal como tenho um limite bem definido.
O dia de hoje contou com cerca de 52km a andar, a contar com os dois em que tive perdido, num total de quase 9 horas. 60 mil passos e 5 mil kcal foi o necessário para completar a etapa de hoje.
Amanhã serão 43 até Santiago, passando por Padrón aos 18km. Conto acordar às 4h, para ter tempo de lá chegar, a contar com eventualidades dos dedos e das bolhas, e ter tempo de ir buscar a Compostela antes de ir tentar apanhar a camioneta para o Porto.
Está quase!
quarta-feira, 31 de agosto de 2016
Caminhos de Santiago 2016 - Rubiães a Mós
O despertador tocou as 5h, não queria acreditar que já estava na hora. Desapertei o saco cama mas deixei-me ficar ali na preguiça uns minutos, sentia-me demasiado exausto para continuar.
O arrumar das coisas demora sempre algum tempo e, sendo o único acordado, tentei fazer devagar e com o mínimo de barulho possível. Parece que quanto mais devagar se faz uma coisa, mais barulho ela fará.
O relógio marcava 5h30 quando comecei a andar. Ainda de noite e com segmentos sem qualquer tipo de iluminação a não ser a minha lanterna, os primeiros 4 quilómetros demoraram mais do que queria a serem feitos. Após isso e com apenas 45min de caminhada, parei um pouco para comer alguma coisa. Embora ainda fechado por ser muito cedo, parei no mesmo café onde, no ano passado, o meu pai decidiu que não conseguiria continuar devido as bolhas nos pés.
Quando recomecei a andar impus o ritmo elevado a que me habituei nos últimos dois dias, que me permite cobrir boa distância sem chegar demasiado tarde aos locais. Em apenas 1h já tinha entrado no concelho de Valença e 30min depois, com 17km realizados, já estava no forte, à saída de Valença, à saída de Portugal.
Faltava agora a primeira etapa que no ano passado realizei sem o meu pai, 23km até Mós. Começando por atravessar a ponte que liga Valença a Tui, para entrar oficialmente em Espanha e nos últimos 115km até Santiago.
À saída de Tui uma parte muito chata: mais de 4 quilómetros seguidos em estrada nacional. Embora permita andar a bom ritmo por ser plano o suficiente, a monotonia da estrada cansa muito mais que qualquer montanha. Além do cansaço psicológico, a estrada também já me estava a dar bastantes dores nas plantas dos pés, pelo que aproveitava sempre que a terra na beira da estrada era grande o suficiente para lá andar, sendo muito mais suave o impacto nos pés.
A estrada da lugar a montanha e, passado bastante tempo, cheguei a uma espécie de café, nas traseiras de uma casa, onde já tinha parado o ano passado. Desta vez estava vazio, para quem teria saído de Valença já era bastante tarde. No entanto, apanhei o primeiro grupo de portugueses do Caminho desde que comecei; eram 4 em que um tinha cometido o mesmo erro que eu na primeira vez, enquanto inexperiente: trazer a mochila demasiado carregada.
A paragem foi curta, dando apenas para uma bebida fresca. Assim que continuei tinha em mente que, daí a pouco, chegaria ao local onde há uma pequena "guerra" entre comerciantes e a Associação do Caminho de Santiago da Galiza, em que uns querem mudar parte do Caminho para uma parte mais bonita pela floresta, e os outros insistem em fazer de tudo para que os peregrinos se mantenham no percurso antigo. No local onde se dá a alteração de percurso observa-se várias tentativas de quem defende o novo percurso a serem destruídas e substituídas por outras. Muitas manchas de tinta preta a tapar as setas amarelas "verdadeiras" e muitas outras setas, também amarelas, a tentar encaminhar para a zona industrial, onde os comerciantes acreditam que conseguirão vender se as pessoas por lá passarem.
A parte da floresta era exatamente como me lembrava: de uma beleza incrível e intocada a não ser o simples caminho que lá passa no meio. Uma pequena ponte de pedra para passar por cima do riacho e uma outra a acompanha-lo onde não há caminho.
Assim que saí deste percurso de floresta encontrei um casal a falar com uma pessoa de mota, eram uns alemães a quem um espanhol, membro da Associação, explicava o novo caminho, fora do complexo industrial. Este espanhol tinha já passado na zona perto de Porriño a renovar as setas amarelas e ia a caminho da primeira zona de "guerra" para também lá renovar. A estas pessoas tenho imenso a agradecer pelo seu esforço em manter o Caminho algo apreciável de se realizar.
Continuando o meu caminho, a sentir-me cada vez mais cansado e com os pés a ressentirem-se, fiz o esforço de chegar até Porriño. Lá, sentei-me 5min a descansar os pés, passei num supermercado a comprar cereais e barras de cereais e em pouco tempo segui caminho, faltavam apenas 6km para o Albergue e poder descansar a vontade, apenas 1h de caminhada.
Não demorou muito para ter a certeza de uma coisa: tinha uma bolha. Afinal sou mortal! Ontem fui sentindo uma coisa estranha no pé esquerdo, debaixo dos dois dedos mais pequeno, aquilo que parecia ser uma bola, ou a meia estivesse dobrada. Mas sempre que parava e mexia um pouco o pé a verificar, não parecia ter nada. Decidi não mexer, tentar ignorar a dor e continuar a andar, fazendo mais força com os braços de forma a aliviar ainda mais a pressão das pernas e utilizando os batons para me ajudar a andar ainda mais rápido, estava determinado a chegar ao albergue. Mesmo assim, estranhamente, apareceram-me dores nas pernas, estavam a começar a queixar-se da pancada que apanharam ao longo de 3 dias, mesmo com a quantidade de proteína que tenho comido, entre as barras e as latas de atum. Entre as pernas cansadas e a começarem a doer e a planta dos pés também dorida, só aliviava e distraia esta dor o sentir a bolha a crescer.
O reconhecimento do local do albergue foi uma grande alegria, só queria tirar a mochila e descansar. O tirar das sapatilhas confirmou o receio de ter uma bolha, no mindinho do pé esquerdo. Além disso, observando ao espelho, que também já tinha reparado ontem, tinha umas pequenas bolhas e micro espinhas nos ombros. A minha teoria é que o estar tanto tempo com a mochila nos ombros impediu a pele de respirar corretamente, provocando pequenas espinhas. Fora isso, sinto-me bem, para alguém que acabou de fazer 150km em 3 dias haha.
A etapa de hoje demorou mais de 7h a ser cumprida, percorrendo uma distância de mais de 42km. Mais de 50 mil passos e 4500 kcal foram necessários para isso.
terça-feira, 30 de agosto de 2016
Caminho de Santiago 2016 - Barcelos a Rubiães
Segundo dia, o relógio está no pulso e apita: são 5h, é hora de levantar. Arrumo as coisas rapidamente, deixando os calções ainda molhados pendurados de fora da mochila. Passado meia hora já estou a andar, a sair de Barcelos. 20 segundos depois de começar já estava a voltar para trás, tinha-me esquecido dos batons na entrada do albergue xD.
Os primeiros quilómetros foram lentos, especialmente por ser de noite e ter de parar várias vezes para ter a certeza que estava no caminho certo. As subidas começaram a aparecer e uma ligeira dor na planta do pé esquerdo foi surgindo, uma dor de pressão, mas que não impede de continuar.
Com a acumulação das subidas e tendo apenas comido uma barra de proteína antes de sair, ao fim de apenas 1h30 parei para descansar e comer. Uma lata de atum, uma barra de cereais, uma vista de olhos nas redes sociais e estou pronto a seguir. Tal como ontem, aproveitando também para escrever um pouco.
Tendo já experiência do percurso do ano passado, sabia que ainda faltavam mais de 24km até chegar a Ponte de Lima. Como daí seriam mais 17 até Rubiaes, decidi fazer tudo seguido. Foram 4 horas a andar a ritmos elevados, de forma a ganhar algum tempo que usei depois para descansar. Os batons sempre a ajudar no ritmo e a reduzir a pressão nas pernas. No entanto, cada vez mais fui sentindo e foi crescendo uma dor na planta dos pés, estar tanto tempo de pé começava a custar.
Sabia que queria fazer direto até Ponto de Lima, para depois descansar um pouco e fazer de seguida o resto até Rubiães. A parte que mais custou foram os últimos 10km, já tinha 20 nas pernas e começava a sentir-me cansado. Um pé à frente do outro, com algum esforço lá cheguei a Ponte de Lima, onde fui em direção ao albergue. Uma vez que ainda eram 12h e o albergue apenas abriria as 16h, estava vazia a entrada. Sentei-me num banco a sombra a descansar e comer um pouco, até que me encostei a mochila e adormeci para uma pequena sesta.
Assim que acordei e preparei-me para sair, apesar de ainda ser cedo, faltavam 17km a percorrer pela montanha. Com os pés descansados e com energia renovada, os primeiros quilómetros foram feitos rapidamente, sabendo também que perderia algum tempo nas subidas. A meio caminho parei 5min para atestar a água e carimbar a credencial e lá segui para as subidas.
Pelo caminho passei por um casal Canadiano, tendo seguido um pouco com eles na conversa. Tinham já realizado o Caminho Francês no espaço de 6 anos: a cada ano voltavam para o sítio onde tinham ficado no ano anterior, totalizando os 1500km num maior espaço de tempo.
Estando a contar com 17km desde Ponte de Lima, tinha ideia que a distância do dia seriam 50 certos e fui com isso em mente, a contar quanto faltaria até ao albergue. No entanto, depois de descer do topo da Serra da Labruja, o albergue não apareceu na altura devida. Apesar de ser apenas 1km depois, quando se faz uma distância destas e se espera a certa altura a chegada, cada 100 metros a mais custam muito mais psicologicamente.
Mas finalmente tinha o meu descanso, pude tirar as sapatilhas dos pés e a tshirt encharcada em suor. Tomar um banho quente para relaxar e lavar a roupa do dia.
Jantei cedo, no restaurante perto do albergue, e antes das 19h30 estava pronto a voltar, arrumar tudo e ir dormir.
Os 51km de hoje foram realizados em 8h45, para o qual foram necessárias 5 mil kcal. 60 mil passos requeridos para o dia de hoje, os meus pés merecem descanso.
segunda-feira, 29 de agosto de 2016
Caminho Santiago 2016 - Porto a Barcelos
Primeiro dia, reviver as experiências passadas, com grandes expectativas.
Este ano vou fazer sozinho, pelo que decidi fazer uma aventura maior: realizar a distancia total em 5 dias, portanto, cerca de 50km por dia.
O dia não começou exatamente da melhor maneira, queria ter acordado às 5h para sair o mais cedo possível, mas virei a cara para o outro lado e adormeci mais 1h30. Com um prato de massa no estômago, para dar a dose de hidratos logo de manhã, segui caminho.
Desta vez de maneira diferente que a vez anterior: saí de casa e fui em direção onde sabia que o caminho passava. Portanto, não saí da Sé do Porto, fui andando a pé em direção a Monte dos Burgos, onde sabia do ano passado que o Caminho passava.
Demorei mais de uma hora, 6km, para chegar ao caminho certo. A partir daí é só seguir as setas amarelas, por um caminho que já é conhecido pela experiência do ano passado.
Com as pernas um pouco doridas fui tentando impor um bom ritmo, o objetivo do dia era grande e não seria fácil de cumprir, para além de demorar bastante tempo. A velocidades de cerca de 6km/h os quilómetros foram passando, sem ver mais nenhum peregrino ao longo das primeiras 3 horas de caminhada. Passados 20km aparece o primeiro grupo, altura em que aproveito para parar um pouco, comer qualquer coisa e escrever (tudo isto até agora).
Depois da primeira pausa tomei a decisão de seguir com os batons, sentia as pernas bastante cansadas da prova de ontem e os pés também já se começavam a sentir, pelo que assim seria capaz de aliviar a pressão das pernas bem como manter o ritmo com menos esforço sobre as mesmas.
Fui sempre andando a bom ritmo, ligeiramente acima dos 6km/h. Passado pouco mais de uma hora passei pelo Mosteiro de Vairão, onde o ano passado tinha ficado no fim da minha 1a etapa, cerca de 27km depois de começar.
Sabia o que tinha agora pela frente, a segunda etapa de uma "pessoa normal", seriam mais 30km até Barcelos.
Fui tentando manter o ritmo elevado, depois de umas contas rápidas de cabeça, sabia que tinha de andar rápido caso contrário chegaria muito tarde a Barcelos. Parei uma segunda vez pelos 35km, desta vez mais rápido, tendo apenas comido uma barra de proteína e atestado a água. Ao seguir caminho, uma Alemã juntou-se a mim, mas apenas fez 5km, tendo depois ficado em Rates.
Daí segui sozinho e a tentar fazer ritmo até ao Restaurante Pedra Furada, onde recolheria a minha credencial de peregrino. Isto aconteceu porque ontem à noite lembrei-me que ainda não tinha arranjado, tinha-me esquecido de ir a Sé buscar. Na altura liguei ao Sr António Herculano e, sempre muito prestável, disse-me que tinha e que me guardaria uma. Chegado lá, com bastantes peregrinos naquele que é um marco do Caminho.
Com um suminho de laranja que me soube "pela vida" e uma boa conversa, segui caminho para cumprir os 10km que faltavam até poder descansar. Foram uns quilómetros bastante longos, a olhar para o relógio a tentar fazer que o tempo andasse mais depressa. Mesmo a fazer cada km em 10min, o tempo parecia não se mexer, queria muito chegar.
Ainda demorou mais de 1h30, mas finalmente cheguei a Barcelos, onde me encaminhei diretamente para o albergue, para tomar banho e lavar a roupa.
Hoje foram mais de 56km, percorridos em 9h30, a uma média de cerca de 6km/h. Mais de 69mil passos e 5000 kcal.
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Wings for Life 2016
Correr por aqueles que não podem e financiar a
pesquisa da cura de lesões na espinal medula. Este foi o meu 2º ano a
paticipar, na 3ª vez que a prova é realizada. É uma prova com um conceito
diferente: em vez de termos uma distância definida e corrermos um percurso até
à meta, a meta é um carro que vem na na nossa direção e temos de “fugir” o
máximo possível. O carro meta parte meia hora depoios da corrida começar e
começa a 15km/h, uma hora depois passa para 16km/h, uma hora depois para
17km/h, duas horaas depois para 20km/h e duas horas depois vai para a
velocidade máxima de 35km/h.
O ano passado corri pela Synergie, que, numa
ação de marketing, financiou a inscrição a cerca de 40 pessoas. Corri 33km em
mais de 2h30, sendo que os ultimos km’s foram feitos a muito custo, com muito esforço e bastante
devagar. Para além da duas maratonas que fiz com 16 anos, foi a maior distância
que fiz a correr sem parar, mas não o maior tempoo a correr, essa prova foi o
Trail da Raposa onde fiz 26km em 3h30.
Este ano corri pela minha equipa de trail,
Gaia Trail, que decidimos realizar a prova para mostrar o nosso suporte e
correr por aqueles que não podem.
Com a Taça Ibérica de Trail ainda bem presente
nas pernas, esta prova era um momento de brincadeira e de aproveitar para estar
a correr com vários amigos da corrida, sabendo já que não iria correr o máximo
possível, mas apenas 10km.
A partida foi na Casa da Música e começava a
descer a Avenida da Boavista. Uma vez que tinha de ir ter com os meus colegas
para me passarem o dorsal, cheguei lá às 11h, uma hora antes de começar. O
bloco de partida abriu às 11h20 e, apesar de nãao ter nenhum objetivo para esta
corrida, não gosto de partir atrás no meio da confusão, pelo que fui logo para
a partida e estive lá com vários amigos até à partida. Enquanto esperavamos
para a hora de partida, tanto apanhavamos chuva e ficavamos com frio, com a
seguir o sol aparecia e ficava bastante calor. Cerca de 5min antes de começar,
começou a chuva bastante e ficou muito frio, mas felizmente não durou muito
tempo.
Assim que partimos a parte mais chata é ter de
passar os VIP’s mais lentos que partem à frente. Isto só acontnece em Portugal,
quem não corre nada vai para a frente incomodar aqueles que querem andar. Quando me livrei
da massa de pessoas e conseguia ver os atletas à frente, reparei que o grupo da
frente não estava muito longe. Uma vez que se trata de uma prova de endurance, não partem muito rápido pois
sabem aquilo que têm pela frente.
Estava ali para brincar, por isso acelerei um
pouco até os apanhar. Apanhado mais um colega de equipa que tinha partido com
este grupo, decidi abusar, gozar um pouco com a situação: acelerei que nem um
maluco e ganhei mais de 100 metros do grupo da frente, estava em 1ºlugar!
O sprint
não foi dificil, até porque estávamos a descer a Avenida, depois foi apenas uma
questão de manter e brincar com a situação. Cheguei a tirar o telemóvel e
filmar, o registo online chegou a mostrar-me em 1º lugar em Portugal, a câmara
e as bicicletas estavam a acompanhar-me,...não conseguia conter o sorriso de
alegria, estava mesmo a divertir-me. Ainda com o telemóvel na mão, filmei os
atletas enquanto eles passavam por mim e recuperavam a posição que era
claramente deles e não minha. Depois disso, ainda brinquei mais um pouco,
enquanto decidi parar e esperar pela 1ª mulher e correr um pouco com esse
grupo.
A brincadeira de acelerar claramente tinha
deixado marca nas pernas, tendo em conta que já estava com bastantes dores do
dia anterior e o sprint para ganhar
alguma distância foi um pouco puxado. Ainda assim fui-me mantendo com alguns amigos,
tirando algumas fotos e filmando com o telemovel.
Chegado aos 10km, parei. Tinha cumprido aquilo
a que me tinha proposto, já sentia bastantes dores nas pernas. Mas o carro meta
ainda demoraria, portanto...vou brincar e divertir-me um pouco mais! Comecei a
andar para trás, a um ritmo muito lento, apanhando vários atletas que conhecia,
e desejando boa sorte a todos os outros. Com o telemovel, ainda fui tirando
várias fotos com vários atletas, por vezes tendo de correr a acompanha-los, mas
principalmente ficando a espera que passassem ao meu lado.
Fui andando para trás em direção ao Edifício
Transparente, onde estava a base de operações da prova, onde estaria a minha
mochila com as minhas coisas todas. Sabia que pelo caminho havia de passar o
Carro Meta por mim para finalizar oficialmente a minha participação. Assim que
o vi, tive mais uma ideia para me divertir um pouco: correr ao lado do carro.
Com o telemóvel a filmar, corri durante um pouco a acompanhar o carro, num
ambiente que me fazia sentir feliz e me fazia rir às gargalhadas, estava mesmo
a divertir-me, uma vez que tinha ido ali sem objetivo de correr.
Eu tinha feito 10km em 41min. Mas uma vez que
voltei para trás, o na altura em que o Carro Meta me apanhou, registou que eu
tinha realizado 7,83km, tendo tido para isso cerca de 1 hora para fazer.
Atividade 10km: Garmin Connect
Pós corrida, a voltar: Garmin ConnectFotos disponíveis no meu albúm do Facebook.
terça-feira, 10 de maio de 2016
Taça Ibérica de Trail
Depois de mais de 6 meses sem fazer provas e
estar finalmente a correr depois de uma lesão que me forçou a parar durante
dois meses seguidos, foi altura de finalmente fazer uma prova, e não há nada
melhor que voltar com uma prova de trail. A Taça Ibérica realizou-se em
Cerveira e compriendia as distâncias curta de 21km e ultra de 50km.
Sabia que não estava nem estou ainda na minha
melhor forma física, mas ainda assim tive vontade de fazer uma prova de trail,
na companhia de mais 3 colegas de equipa. Fomos todos juntos e até ao momento
de partida assim nos mantivemos, podia ser que com alguma sorte e bastante
esforço ainnda conseguissemos ganhar alguma coisa por equipas.
A prova começou às 9h08, uma vez que tinha de
dar um avanço de 1 hora à ultra. No início da prova destaquei-me e parti à
frente com todos os “prós”, que claramente correm melhor e mais que eu, pelo
menos para já. Com uma voltinha pela Vila antes de começar a subir, fiz esse
primeiro quilómetro bastante rápido, mas com a clara mentalidade que teria de
me gerir melhor para o resto da prova.
Mal saímos da estrada para o monte começou a
subir, e bem. Mesmo sendo a primeira subida e tendo ainda força, decidi não
puxar por mim e não me esforçar, pelo que fiz a subida a andar, tal como todos
os outros atletas. Ao fim de pouco tempo ficou claro que estava com fadiga
muscular, sentia os músculos cansados e a não responder como melhor gostaria.
Foi durante essa subida que o Carlos da minha equipa me passou, era o único
maluco a correr numa subida com aquele nível de inclinação.
Acaba a subida e o descanso não foii muito
longo. Uma pequena descida acentuada também não permite ganhar muita velocidade
e chega a cansar mais o travar o corpo que a subiida. Nessa descida passei eu o
Carlos, parece que a prova para ele acabou ali, uma lesão ainda não totalmente
recuperada não o permitiu continuar a correr.
Depois da curta descida, mais uma subida. Esta
começou menos acentuada, mas rapidamente ficou bastante dura. Foi curta, porém,
com uma descida logo a seguir, mantendo o esforço elevado. Foi nesta altura que
as subidas se começaram a revelar o meu problema, rapidamente fiquei sem força
para qualquer tipo de inclinação, por mais ligeira que fosse. No plano e
ligeiras descidas já não tinha esse problema e facilmente recuperava algum do
tempo perdido nas subidas.
O km 7 apresentou a subida mais agressiva,
foram quase 20 minutos sem parar sempre a subir. Uma ligeira dor de costas já
não me permitia inclinar tanto o corpo e auxiliar as pernas com os braços.
Associado a isso, os músculos dos gémeos e solear ardiam-me tanto que receava
ter desenvolvido uma lesão. A subida foi feita a grande custo e muito lenta,
até ao ponto em que estávamos ao nível das ventoinhas eólicas, onde uma neblina
e um vento forte fazia sentir um frio muito agressivo. Solução: correr!
Os km’s seguintes foram de descanso para os
músculos, estava num patamar onde me sinto muito mais à vontade, a descer
ligeiramente e plano. Depois de vários km’s com ritmos na ordem dos 12 minutos
até aos 18, consegui correr dois seguidos com médias de cerca de 4’10’’/km, uma
grande melhoria.
Mas esta prova não foi feita para ser fácil e
pouco depois voltou a aparecer mais uma subida. Mais caminhada, a ritmos de
15’/km, com as dores musculares a aumentar a cada passo. Já não puxava por mim,
já não tentava ganhar o tempo perdido, apenas tentava continuar a andar para a
frente, sem qualquer força.
Nos últimos km’s fui apanhado por outro colega
de equipa, o Nuno. Andamos juntos durante cerca de um km, ainda nos perdemos uns 200
metros, distraídos e cansados, em mais uma subida. Consegui fugir-lhe um pouco
a seguir, quando o terreno nivelava um pouco e até descia. Mas as pernas já
doiam que o ato de ter de travar o corpo a descer já não me permitia correr a
ritmos minimamente semelhantes aos de antes, chegando ao limite de ter de fazer
uma descida não muito acentuada a andar.
Quase a acabar, já não era uma subida, era uma
escalada. Tinham-me avisado que no final haveria uma pequena subida, de cerca
de 200 metros, mas isto era ridículo, implicava escalar no meio de rochas. Foi
aqui que o Nuno me voltou a passar e nunca mais o apanheiate ao fim.
Ainda antes de voltar à Vila, uma descida
longa mas pouco acentuada massacrou-me bastante. Os músculos já não aguentavam
e ardiam imenso, já não tinha confiança para correr ou “voar” nas descidas, com
receio dos músculos não aguentarem e simplesmente cair.
Com muito esforço lá fui andando até começar a
reconhecer alguns locais onde já tinha passado, estava de volta ao princípio e
perto da meta. Com algum esforço fui correndo, entrei na Vila a fazer o
percurso de antes no sentido contrário.
A prova era bastante difícil, com cerca de 1500mts de desnível positivo. Pelo que um atleta me disse a meio da prova, é a única prova nacional de distância curta classificada como nível IV, que revela o nível de dificuldade da prova.
Cruzei a meta com 2h30min,
numa distância de 20,5km. Média final: 7’21’’/km.A prova era bastante difícil, com cerca de 1500mts de desnível positivo. Pelo que um atleta me disse a meio da prova, é a única prova nacional de distância curta classificada como nível IV, que revela o nível de dificuldade da prova.
Classificação final 47º lugar.
Da minha equipa: Nuno Maia em 44º e Paulo Amadeu em 97º.
Registo: Garmin Connect
Subscrever:
Mensagens (Atom)


